Exemplos de anacronismos em história da ciência

Exemplos de anacronismos em história da ciência:

  • Referir-se à física galileana como sendo uma “aproximação para baixas energias e velocidades” da física relativística.
    • (Motivo: Essa é uma visão retrospectiva que não captura corretamente o propósito com que a cinemática foi formulada por Galileu, nem o papel que ela ocupava dentro da ciência do movimento da época.)

 

  • Usar o termo “função” para descrever os primórdios do cálculo em Newton.
    • (Motivo: O termo “função” somente viria a ser utilizado por Jean Bernoulli, Leibniz e Euler, e, além disso, a nossa noção contemporânea de função é resultado de uma revisão profunda no significado do termo, realizada no século XIX.)

 

  • Pensar a estrutura dos Discorsi de Galileu como se os teoremas sobre a ciência do movimento fossem demonstrados utilizando a linguagem das funções e do cálculo, em vez da linguagem da geometria euclidiana.

 

  • Formular a lei original de Galileu da queda dos corpos em termos de v = Dx/Dt e v = v0 +at
    • (Motivo: Galileu não poderia definir velocidade como um quociente “espaço / tempo”, pois são quantidades de tipos diferentes, e o quadro conceitual da geometria euclidiana somente permitiria razões entre quantidades homogêneas, i.e. de mesmo tipo.)

 

  • Falar sobre “células” ao descrever a história natural / biologia dos séculos XVII e XVIII.
    • (Motivo: O conceito de células como unidades estruturais constitutivas dos organismos apareceria somente com Scheliden e Schwann no século 19.)

 

  • Contar a história da mecânica como se as concepções de Descartes, Galileu, Mersenne, Stevin, Gilles de Roberval e outros fossem não mais do que etapas preliminares convergindo para um coroamento ou culminação final que somente aconteceria com a física de Newton.

 

  • Falar em “estruturas algébricas” (grupos, anéis, corpos, etc) para descrever a álgebra de Cardano, Tartaglia e Fibonacci no Renascimento.
    • (Motivo: Trata-se de uma visão retrospectiva com excesso de significados que são estranhos aos referenciais conceituais da matemática renascentista.)

 

  • Referir-se à ciência de Aristóteles como “obsoleta” nos termos em que o faz Carl Sagan em Cosmos:

“Writings about fossils, gems, earthquakes, and volcanoes date back to the Greeks, more than 2300 years ago. Certainly, the most influential Greek philosopher was Aristotle. Unfortunately, Aristotle’s explanations of the natural world were not derived from keen observations and experiments, as in modern science. Instead, they were arbitrary pronouncements based on the limited knowledge of his day.”

 

  • Consideração análoga vale para referências que costumam ser feitas às medicinas hipocrática e galênica, à física do impetus e à cosmologia medieval como sendo obsoletas.

 

  • Referir-se ao modelo atômico de Bohr-Sommerfeld como fazendo parte da mecânica quântica moderna, ou como sendo uma “aproximação” à mecânica quântica.
    • (Motivo: O modelo B-S inclui o postulado quântico e a condição generalizada de quantização, mas é um modelo semiclássico, e não emprega elementos centrais da MQ como o conceito de função de estado, a equação de evolução do estado, a interpretação probabilística, o conceito de comutador, a linguagem dos operadores hermitianos.)

 

  • Descartar, sem mais, como irracionais, alguns dos argumentos sobre a imobilidade da Terra propostos antes de Galileu.
    • (Motivo: É preciso compreender o contexto em que se dá o debate sobre o movimento da Terra. O debate não é apenas sobre uma tese isolada, mas envolve uma teia de interligações entre essa tese e toda uma rede de concepções físicas, astronômicas, cosmológicas, epistemológicas e até teológicas. Certos argumentos — não apenas argumentos pró, mas também argumentos contra o movimento — que poderiam parecer irracionais pelos padrões de hoje, possuem um sentido racional à luz da rede em que estão inseridos.)

 

  • Falar sobre o conceito de massa da teoria da Relatividade e sobre o conceito de massa pré-relativístico como se fossem um e o mesmo conceito.
    • (Motivo: “massa” na física anterior à relatividade é uma propriedade individual e absoluta dos corpos, ao passo que na relatividade ela é uma propriedade relacional que depende do referencial e do estado de movimento do corpo.)

 

  • Especular sobre hipotéticas “transferências de conhecimento” entre épocas — por exemplo, especular sobre o que Aristóteles ou Galeno ou Hipócrates diriam sobre a medicina, o funcionamento do corpo humano e dos órgãos, o metabolismo, o sistema cardiorrespiratório, os processos inflamatórios, as doenças infecciosas, etc, se “pudessem ter acesso” aos dados, registros, aparelhos e instrumentos atuais.
    • (Motivo: Não se pode determinar que lugar tais conhecimentos ocupariam nos sistema conceitual dos médicos e filósofos da antiguidade, nem que significado eles poderiam atribuir a tais conhecimentos, nem sequer se eles lhes atribuiriam algum significado.)

 

  • Enxergar uma convergência entre as noções de átomo presentes na obra de Demócrito, Galileu, Boyle, Dalton, Pierre Duhem (pai da físico-química), Bohr e Heisenberg.
    • (Motivo: Embora o termo seja o mesmo, os significados atribuídos a ele em diferentes épocas foram profundamente diferentes. Para estudar o “tema” do atomismo ao longo dos séculos seria preciso trabalhar com uma teoria historiográfica e interpretativa bastante sofisticada.)

 

  • Forçar um paralelo também seria inadequado com relação às noções de vazio oriundas de autores de diferentes épocas e correntes de pensamento: por exemplo, as concepções de vazio associadas a Demócrito, a Aristóteles (contrário ao vazio), ao Bispo Etienne Tempier (nas condenações de 1277), a Bradwardine (medieval), Pascal, Torricelli, Von Guericke, Descartes (contra), Aristóteles (contra), Newton, Lord Kelvin (século XIX). O paralelo ficaria ainda mais fora de controle se fossem considerados os conceitos de “vazio” que encontram-se na obra de Dirac (teoria dos elétrons e pósitrons), de H. B. G. Casimir (extração da energia de ponto zero), e de Andrei Sakharov (cosmologia quântica, 1967-1968). Isso para não falar da atual física experimental do ultra-alto vácuo, da teoria quântica do campo (criação de pares) e, finalmente, das idéias sobre o vazio presentes no misticismo indiano (paralelo que foi sugerido por F. Capra em O Tao da física).
    • (Motivo: O mesmo do item anterior. Trata-se de concepções de “vácuo” e de “vazio” oriundas de vocabulários completamente diversos, possuidoras de referentes inteiramente diferentes, e dotadas de significados profundamente incompatíveis.)

4 pensamentos sobre “Exemplos de anacronismos em história da ciência

  1. Hendrix disse:

    Esses anacronismos são realmente difíceis de serem esquecidos quando comentamos sobre ciência e história. Além de um conhecimento enorme que deve se ter, é complicadíssimo falar de teorias e teoremas com as nomeações das épocas, pois muitas delas não fazem mais sentido a nós.

    • Olá, sim, Hendrix Freire, você conseguiu avaliar a dimensão do problema. Fazer história da ciência de fato não é fácil! Especialmente uma história conceitual, que vai além da mera enumeração de nomes, datas e lugares. É preciso praticar uma imersão naquele universo conceitual — familiarizar-se com os conceitos, com a linguagem, com as categorias de pensamento de diferentes áreas e épocas. Isso se faz por meio de um contato com as fontes secundárias (os historiadores, expositores e comentadores) e com as fontes primárias (os textos originais de época, em boas traduções, se não for possível ler o idioma ou a edição original), e ainda por meio de um estudo dos métodos e técnicas da história.
      Com isso se vai gradualmente construindo uma rede que que será capaz de de proporcionar um contexto para aqueles fatos e desenvolvimentos estudados, possibilitando assim uma interpretação mais coerente e uma compreensão melhor daqueles episódios. Esse é um processo gradual, laborioso, e portanto não é rápido. Contudo, ouso dizer que uma das possíveis portas de entrada para esse universo pode ser, precisamente, o cursar uma disciplina como a nossa, de Nascimento e Desenvolvimento da Ciência Moderna!🙂
      Com relação a esse tema, vou mostrar um exemplo. Trata-se de um artigo do Prof. Roberto de Andrade Martins, do GHTC-Unicamp, um historiador e tradutor de renome nacional e internacional, físico de formação, que foi publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física em 2001. O título é “Como não escrever sobre história da física: Um manifesto historiográfico”, e foi escrito por Martins com o objetivo de contestar alguns pronunciamentos sobre a história do aristotelismo feitos por Marcelo Gleiser em um livro de divulgação científica. Martins critica várias interpretações simplistas e generalizações apressadas feitas por Gleiser — um cientista contemporâneo de indubitável competência em sua área específica, porém inexperiente como historiador. Na opinião de Martins, tais equívocos resultam de uma leitura superficial dos autores, falta de conhecimento das fontes primárias, e lapsos de anacronismo.
      Descontando o tom às vezes um tanto acerbo de Martins, e uma visão um tanto exclusivista do ofício de historiador, o artigo coloca de forma vigorosa alguns desafios bastante reais, mostrando como é árdua a missão fazer uma história bem feita e rigorosa. Por isso achei que seria uma ilustração apropriada das dificuldades pressentidas por Hendrix Freire em seu comentário. Ainda com relação ao artigo de Martins, é justo lembrar que, apesar do tom crítico, por se tratar de um texto acadêmico, ele mesmo não se coloca isento de críticas. Coloco aqui o link para esse artigo com o objetivo, não de desencorajar ninguém a estudar e fazer história, mas sim de ter uma idéia dos desafios que confrontam aquele(a) que pretende fazer história da ciência profissionalmente.
      Vale lembrar ainda que o artigo de Martins acaba sendo proveitoso também por si mesmo, independentemente do seu propósito crítico original, pois apresenta um panorama bastante instrutivo do aristotelismo, sua difusão, seus desdobramentos e posterior questionamento.

  2. Hendrix disse:

    Olá professor,
    você conseguiu reunir e detalhar o que eu havia dito no meu primeiro post. Em um primeiro momento, pensei que o artigo de Martins, exposto acima, era um grande tratado sobre os milhares (ou milhões) de anacronismo feitos durante a história. Agora vi que ele fala somente sobre os anacronismos feitos por Gleiser, mas mesmo assim, me parece muito interessante e farei o possível para ler.
    Interesso-me por isso pois, de certa forma, acho muito interessante pensar o seguinte: se hoje, nós que vivemos em uma sociedade com um alto teor de informações e não conseguimos processar nem um décimo disso, não conseguimos conversar sobre essas teorias científicas tomando os conceitos e valores ideais da época por si só, imagine os antigos físicos, químicos, matemáticos, biólogos, enfim, todos os antigos cientistas que tentavam contribuir na ciência mas não havia um padrão de lógica de pensamento a ser seguido. Será que Newton não cometia, também sem maldade, assim como nós fazemos hoje, seus equívocos? Sou um leigo na história e conhecimento sobre Newton, mas às vezes me pergunto sobre isso realmente.
    Grande abraço, prof.

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