James Evans fala sobre os detratores de Ptolomeu

«Os autores populares que escrevem sobre história da astronomia freqüentemente demonstraram antipatia por Ptolomeu e sua teoria planetária. Naquele estilo melodramático que frequentemente se cultiva, Ptolomeu e seu avô intelectual, Aristóteles, são tratados como vilões em uma história na qual os heróis são Copérnico, Brahe e Kepler. Os cronistas modernos da ciência que a descrevem como uma guerra entre adversários procuraram denegrir Ptolomeu ridicularizando o seu sistema. Dúzias de livros poderiam ser citados, porém bastará um exemplo. Rudolf Thiel, depois de descrever a combinação ptolomaica de epiciclo e eferente, bem como os três centros — a Terra, o centro do deferente e o ponto equante – admite que o modelo foi bem-sucedido enquanto modelo matemático. Ele começa, então, a consignar as suas queixas:

“Mas o que aconteceu com o todo, com a cosmologia grega? Os planetas agora viajavam em loops, isto é, em torno de um ponto imaginário que, por razões desconhecidas, girava, ele mesmo, em torno da Terra. Porém mesmo esse ponto imaginário não girava exatamente em torno da Terra; o centro da sua circunferência era um segundo ponto imaginário, próximo da Terra. Visto que isso também ainda não resultava em um movimento uniforme, fazia-se necessário um terceiro ponto imaginário, a partir do qual o movimento parecia ser uniforme!

Tal era o quadro final de Ptolomeu; esta, a última palavra da astronomia grega. Puro nonsense! Que rendição da mente humana, aceitar tal espécie de mecânica do universo. Que miserável final para a harmonia das esferas.”

– R. Thiel, And There Was Light (New York: Mentor Books, 1960), p. 60. Publicado originalmente em alemão com o título Und Es Ward Licht (Hamburgo: Roswohlt Verlag, 1956).

Este é um caso extremo de uma atitude bastante comum, que continua a existir a despeito dos protestos dos historiadores da ciência. A prevalência dessa visão resulta, pelo menos em parte, da dificuldade real para se obter uma compreensão sólida das funções desempenhadas pelos vários elementos do modelo de Ptolomeu. Com relação a isso, o deferente excêntrico e, especialmente, o ponto equante são os mais problemáticos. É óbvio que o epiciclo é adotado para dar conta do movimento retrógrado; já a função do equante não é tão transparente. Contudo, na realidade, todas as características do modelo de Ptolomeu nascem de forma bastante natural de considerações acerca das retrogradações dos planetas.»

– James Evans, “On the function and the probable origin of Ptolemy’s equant” [Sobre a função e a provável origem do equante de Ptolomeu], American Journal of Physics, v. 52, n. 12, 1984, p. 1080.

Um pensamento sobre “James Evans fala sobre os detratores de Ptolomeu

  1. Hendrix disse:

    Olá prof,

    sobre sua postagem, devo admitir que também me sinto meio estranho ao estudar e tentar entender modelos que tenham como princípios coisas totalmente imaginárias. Mesmo que sendo uma teoria a ser provada e/ou retrucada posteriormente, as equantes e os excêntricos são coisas totalmente imaginárias, sendo impossíveis de serem provadas. O que se tinha era nada mais que contas baseadas em possíveis pontos imaginários no Universo. Claro que ainda hoje temos muitas coisas assim baseadas, mas enfim, vale a pena deixar esse comentário.

    Não ridicularizo a teoria de Ptolomeu, pois devido a sua disciplina, estou vendo o quão complicada, complexa ela é … mas ainda assim acho que a ciência deveria deixar um pouco de lado o que já foi ‘ultrapassado’, digamos assim. Abraço.

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