Acertando as contas com Thomas S. Kuhn?

Uma série de artigos recentemente publicados em um blog no New York Times acerca de um famoso filósofo da ciência do século XX tomou a comunidade internacional de filosofia da ciência de assalto, deixado os fóruns da área, na Internet, bastante agitados. Trata-se da série “The ashtray” (O cinzeiro), escrita pelo renomado diretor de cinema Errol Morris — ganhador do Oscar de 2003 na categoria documentário de longa-metragem, por Sob a névoa da guerra: Onze lições da vida de Robert S. Macnamara.

Morris, após se graduar em história, estudou filosofia da ciência em Princeton no início dos anos 70, e foi aluno de Thomas S. Kuhn (1922-1996), com quem teve uma relação tumultuada, tendo também convivido com alguns outros grandes nomes da filosofia da época. O mote da série é dado pelo episódio em que, segundo Morris, Kuhn lhe atirou um cinzeiro (sic) na cabeça.

Morris é extremamente crítico em relação a Kuhn — tanto o pensador (com sua obra) quanto o personagem (com as histórias a seu respeito). Os artigos são ricos em detalhes sobre as várias pessoas e situações mencionadas, e assim oferecem um retrato vívido do ambiente acadêmico e cultural da época. Certos diálogos são reconstruídos nos mínimos em detalhes — e nesse sentido, é claro, a prudência impõe uma boa dose de cautela quanto à precisão das memórias do autor.

O mais surpreendente, porém, é que Morris, apesar de ter deixado a área e se dedicado (com sucesso) ao cinema, parece ter continuado a acompanhar a literatura e os debates, e segue tendo opiniões bem nítidas e fortes sobre os temas. Os seus textos são densamente preenchidos com formulações bastante precisas das teses filosóficas, e explicações detalhadas dos argumentos e contra-argumentos.

Incomensurabilidade, anacronismo e racionalidade são alguns dos temas que ficam em evidência ao longo dos cinco artigos. O tema da perene assincronia entre o que se pensava sobre as idéias de Kuhn e como ele mesmo se via (achando que muitos de seus leitores e críticos não o haviam compreendido corretamente), é recorrente — e dá a deixa para que Morris cite fartamente Borges, o autor de Pierre Menard, por sua vez o autor do Quixote.

Enfim, pode-se concordar com Morris ou discordar dele, pode-se ficar mais indignado ou menos com o retrato pouco lisonjeiro que se pinta de Kuhn, mas trata-se inegavelmente de uma leitura sumamente interessante e provocativa, e por isso altamente recomendada para quem se interessa pela filosofia da ciência no século XX.

The Ashtray, Part 1 – The Ultimatum

The Ashtray, Part 2 – Shifting paradigms

The Ashtray, Part 3 – Hippasus of Metapontum

The Ashtray, Part 4 – The Author of the ‘Quixote’

The Ashtray, Part 5 – This contest of intepretation

2 pensamentos sobre “Acertando as contas com Thomas S. Kuhn?

  1. […] of rigid designation”, onde o antes controverso autor (sobre o qual já escrevemos neste mesmo blog) continua a trabalhar, em sua fase pós-Estrutura, o tema da incomensurabilidade, em termos das […]

  2. […] primeira edição desta que é a obra mais célebre de Kuhn saiu — de forma algo supreendente — como uma monografia ou ” fascículo” da […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s