Minnesota Studies in the Philosophy of Science agora online

Um corte transversal em mais de meio século de filosofia da ciência. Um verdadeiro acontecimento editorial, no âmbito da literatura acadêmica contemporânea em filosofia, com reverberações em áreas tão diversas quanto a física, a ciência cognitiva, a matemática, a lógica, a história da filosofia, a psicanálise, a psicologia, a história, a sociologia da ciência. Uma profusão de textos e autores que se tornaram (a maioria deles) nada menos do que clássicos da filosofia contemporânea da ciência. Uma rica e vasta porção sistemática do que de melhor se produziu na metaciência do século XX. Um exemplo esplêndido do uso da Internet no sentido de democratizar o acesso ao conhecimento da mais sofisticada extração.

A Wilson Library, no campus Twin Cities da Universidade de Minnesota, o mesmo onde está localizado o Centro de Filosofia da Ciência (Fonte: Maira's Library Blog)

De todas essas formas pode ser descrita a série Minnesota Studies in the Philosophy of Science, gestada nos seminários do hoje lendário centro de pesquisa, que agora aparece na íntegra em formato eletrônico e acesso livre. É até um tanto difícil falar objetivamente sobre volumes que foram minhas leituras constantes, que de tal forma me alimentaram durante décadas, mas vamos tentar.

Um dos temas que perpassam a coleção é, claramente, a substituição da filosofia do empirismo lógico — após ter definido rumos de investigação durante algumas décadas, e ter realizado uma minuciosa autocrítica –, primeiro pela filosofia da “virada historiográfica”, e depois pelo naturalismo e pelos enfoques computacionais. Outro tema — mais um dentre os múltiplos trajetos que podem ser percorridos — é a teoria geral da ciência cedendo cada vez mais espaço à filosofia das ciências particulares.

Os três primeiros volumes — The foundations of science and the concepts of psychology and psychoanalysis, de 1956; Concepts, theories and the mind-body problem, de 1958; e Scientific explanation, space and time, de 1962 — são dominados por um “primeiro time”, ligado — seja por adesão, seja por oposição — à agenda de problemas do empirismo lógico tardio: Carnap, Scriven, Sellars, Feigl, Hempel, Grover Maxwell. Textos sólidos, sistemáticos, laboriosos, fazendo jus ao que de melhor o empirismo lógico nos deixou como exemplo. O volume 1 apresenta, entre vários outros, nada menos que dois textos clássicos, dos que figuram em qualquer antologia: “The methodological character of theoretical concepts”, de Carnap, e “Empiricism and the philosophy of mind”, de Sellars. De contrapeso, ninguém menos do que Skinner, o behaviorista-mor, em uma peça polêmica, “Critique of psychoanalytic concepts and theories”. No volume 2, entre muitos outros, mais dois clássicos: o de Hempel, “The theoretician’s dilemma: a study in the logic of theory construction”, em cuja parte final o autor analisa o teorema de Craig e a sentença de Ramsey; e “The ‘mental’ and the ‘physical'”, de Feigl. No volume 3, a resposta provocativa de Grover Maxwell a Carnap, intitulada “The ontological status of theoretical entities”, além, entre outros, de um esforço tardio de sistematização de Hempel, “Deductive-nomological vs. statistical explanation” — material que viria a ser incorporado em seu Aspects of scientific explanation and other essays in the philosophy of science, de 1965 — sem esquecer o texto de Adolf Grünbaum, “Geometry, chronometry and empiricism”, trabalhando temas presentes em seu Philosophical problems of space and time, de 1963.

No volume 3, de 1962, encontramos o artigo marcante de Paul Feyerabend, “Explanation, reduction and empiricism”, um de seu primeiros ataques de fôlego à received view; e no volume 4, de 1970, encontramos o seu artigo “Against method: outline of an anarchistic theory of knowledge” — o qual, depois de muitas expansões e reelaborações (e graças aos debates com Lakatos e, por que não, à sua influência), seria um dos embriões que dariam origem ao célebre livro Contra o método. Neste mesmo volume 4, Analyses of theories and methods of physics and psychology, encontramos textos de Carl Hempel e de Herbert Feigl que hoje soam como cantos do cisne para a received view (o segundo destes, já traduzido em português).

No volume 5, Historical and philosophical perspectives of science, encontramos o clássico de Ernan McMullin (cujo recente falecimento foi noticiado neste blog), “The history and philosophy of science: a taxonomy”, juntamente com três tours de force sobre a eletrodinâmica, de Howard Stein, Kenneth Schaffner e Roger Stuewer (com direito a comentários de Mary Hesse). Feyerabend aproveita para deixar novamente clara a sua veia provocativa, com “Philosophy of science: a subject with a great past”.

No volume 6, de 1975, Induction, probability and confirmation, começamos a testemunhar algo como uma mudança de geração. Veteranos como Grover Maxwell, Mary Hesse e Wesley Salmon aparecem lado a lado com filósofos mais jovens, como Paul Teller, Jeffrey Bub e Ronald Giere, trazendo novos aportes para as questões da lógica indutiva, probabilidade, confirmação e bayesianismo.

Duas páginas do artigo de David Malament no Volume 8

A mesma tendência se observa no volume 8, de 1977, Foundations of space-time theories, onde despontam nomes como Michael Friedman, Clark Glymour, David Malament e Lawrence Sklar, entre outros, todos dedicando-se a um mergulho profundo nos temas mais espinhosos da filosofia da física, em particular os fundamentos das teorias da relatividade restrita e geral. O que temos aqui? Questões ancestrais da agenda filosófica — de metafísica, de teoria do conhecimento, de lógica e teoria de categorias, de metodologia — reformuladas e transpostas para o contexto da física contemporânea? Ou questões de fundamento que insistem em reaparecer, aqui e ali, em meio à prática da física, convidando a (e às vezes exigindo) uma abordagem filosófica? Talvez ambas as formas de ver a discussão não sejam mutuamente excludentes. No texto “Absolute and relational theories of space-time”, de Adolf Grünbaum, o veterano filósofo ainda mostra-se capaz de propor o mapa do caminho.

Entre os autores que contribuem para o volume 7, Language, mind, and knowledge, encontramos nada menos que Chomsky, Dennett, Jerrold Katz, John Searle, Gilbert Harman, David Lewis e Hilary Putnam, este com seu desafiador “The meaning of ‘meaning'” — mais um dos trabalhos definidores de rumos oriundos da pena do velho mestre (comparável aos igualmente influentes “What theories are not” e “Is logic empirical?”).

O sumário do Volume 9

No volume 9, Perception and cognition: Issues in the foundations of psychology, de 1978, Dennett e Gilbert Harman reaparecem ao lado de nomes como Jerry Fodor, Fred Dretske, Zenon Phylyshyn e Cliff Hooker, sem esquecer Herbert Simon (que naquele mesmo ano ganhara o Prêmio Nobel), todos traçando um panorama da nova filosofia da mente, onde tendências como a computacional e a naturalista começam a dominar o cenário. O recorte adotado apresenta um marcado contraste com as abordagens do volume 7: aqui, estamos claramente em mais uma fase de transição.

O já citado Glymour reaparece dando o tom do volume 10, de 1983, Testing scientific theories, um simpósio voltado para a sua teoria do bootstrap testing desenvolvida no livro Theory and evidence, de 1980. Bas Van Fraassen — que no mesmo ano de Glymour publicara o seu The scientific image, no qual defende o empirismo construtivo que hoje se mostra extremamente fecundo — contribui com dois textos, e Grünbaum volta-se para os temas da psicanálise, que na fase da maturidade passaram a dividir espaço em sua obra com as análises sobre tempo, causalidade e relatividade.

O volume 11, History and philosophy of modern mathematics, de 1988, apresenta tanto estudos de caso conceituais (sobre a análise não-standard de Robinson, sobre o Programa Erlangen de Felix Klein — este, co-autorado por ninguém menos que Garrett Birkhoff, algo como a história viva da matemática contemporânea — , o desenvolvimento da teoria clássica da probabilidade, o logicismo da virada do século XIX para o XX) quanto estudos de história institucional da matemática. Junte-se a isso, ainda no volume 11, um texto de Michael Friedman no qual o empirismo lógico já passa a ser objeto de estudo histórico: “Logical truth and analiticity in Carnap’ s Logical syntax of language“, que prenuncia a voga dos estudos tipo-HOPOS sobre a história do positivismo lógico (este texto viria a fazer parte do seu livro Reconsidering logical positivism, de 1999).

Esta vertente de estudos sobre o empirismo encontra expressão ainda mais plena no volume 12, Rereading Russell: Essays in Bertrand Russell’s metaphysics and epistemology, de 1989, em cujos capítulos são focalizados temas como a teoria dos tipos, o manuscrito Theory of knowledge e a concomitante interação com Wittgenstein, os problemas da indução, o imortal texto “On denoting”. Chamo a atenção para uma valiosa peça de Demopoulos e Friedman que resgata o conceito de estrutura no épico (o termo não poderia ser senão este) Analysis of Matter, de 1927.

O volume 13, intitulado simplesmente Scientific explanation, é capitaneado pelo grande expoente contemporâneo do tema, Wesley Salmon, que nos presenteia com a monumental revisão histórica com mais de 200 páginas, “Four decades of scientific explanation”. Autores de ponta como Nancy Cartwright, David Papineau, Peter Railton, Philip Kitcher, Matti Sintonen, Merrilee Salmon e James Woodward mapeiam diversos ângulos do venerável tema sob pontos de vista atuais.

Finalmente (por enquanto), o volume 14, com título ainda mais sucinto, Scientific theories,  nos presenteia com várias e surpreendentes reentradas em cena: primeiro, de Thomas Kuhn, com “Dubbing and redubbing: The vulnerability of rigid designation”, onde o antes controverso autor (sobre o qual já escrevemos neste mesmo blog) continua a trabalhar, em sua fase pós-Estrutura, o tema da incomensurabilidade, em termos das noções de tradução, metáfora, léxico e referência — um avanço rumo a uma maior sutileza interpretativa, diria ele; um recuo conservador, dirão seus críticos. Ao mesmo tempo, Salmon faz um exercício de releitura do mesmo Kuhn, em “Rationality and objectivity in science, or: Tom Kuhn meets Tom Bayes”. Além disso, Larry Laudan retoma o tema da subdeterminação empírica, já na fase pós-Progress and Its Problems e pós-Science and Values, em seu “Demystifying underdetermination”. O velho mestre Grünbaum retoma o seu novo tema de interesse, a psicanálise; John Worrall explora as interpretações kunhianas da história da ciência à luz do seu racionalismo crítico de tipo realista-estrutural; e Paul Churchland expõe seu programa naturalizante em “On the nature of theories: A neurocomputational perspective”. Richard Boyd, escrevendo sobre o tema do realismo científico, Eliott Sober, o veterano Brian Skyrms e o “neopopperiano-bayesiano” Colin Howson, entre outros, integram o volume.

Este tesouro intelectual está disponível agora na íntegra (14 volumes até 1990) para todo o público interessado. (Quanto aos volumes 15[1992] a 19[2006] — intitulados Cognitive models of science, Origins of Logical Empiricism, Quantum Measurement: Beyond paradox, Logical empiricism in North America e Scientific Pluralism — deles estão disponíveis, por enquanto, apenas os ensaios introdutórios.) O Minnesota Center for the Philosophy of Science deve ser efusivamente parabenizado pela demonstração de descortino, espírito público e fidelidade à sua missão acadêmica, ao tomar a iniciativa de colocar todo esse material, de valor simplesmente inestimável, disponível sob a forma de acesso livre.

2 pensamentos sobre “Minnesota Studies in the Philosophy of Science agora online

  1. Francisco J. Fraga disse:

    Não conheço quase nada de Filosofia da Ciência, mas gosto muito das idéias de Popper, por isso me causou estranheza o fato de que ele não aparece em nenhum lugar do seu texto. A única referência indireta a ele é no trecho “…“neopopperiano-bayesiano” Colin Howson… ” Não é Popper um dos maiores nomes da Filosofia da Ciência?

    • Olá, Francisco, obrigado pelo comentário. A sua observação é relevante e coloca uma questão interessante de acomodação institucional/intelectual de um dado sistema de pensamento (no caso o popperiano) a um dado contexto. A importância de Popper na filosofia da ciência do século XX é inegável. Examinando os volumes da série, notamos que os principais aspectos (ou desdobramentos) da filosofia popperiana estão representados, mas também se percebe essa presença, em termos quantitativos, é reduzida. Encontramos discussões sobre a epistemologia evolucionária popperiana sob o prisma do determinismo e da racionalidade (Meehl, no vol. 4), a visão popperiana da probabilidade como propensão e sua conexão com a interpretação da Mecânica Quântica (Bub e Settle, no vol. 6); um exercício de aplicação da metodologia popperiana ao caso da paleontologia estatística (Meehl, no vol. 10). Dois neopopperianos de destaque, John Worrall e Colin Howson, aparecem no vol. 14. E referências à visão de Popper acerca da psicanálise são feitas nas discussões de Grünbaum sobre o estatuto epistêmico dela. E é basicamente só isso. O que de certa forma me surpreende é a pouca referência feita a Popper nas discussões sobre filosofia da mente e o problema mente-corpo em alguns dos volumes.

      Como não participei do Centro, não conheço exatamente as causas institucionais disso: é algo que talvez pudesse ser esclarecido por alguém que tenha estudado ou pesquisado ali. Quanto aos motivos, digamos, mais intelectuais, pode-se arriscar algumas conjecturas. Percebe-se que os primeiros volumes têm o seu tom marcadamente ditado pelo empirismo lógico norte-americano, por sua vez fortemente influenciado por Carnap e seus alunos, de modo que temas como indução, linguagem, significado, confirmação e explicação têm uma presença muito forte. Como esses são temas menos valorizados por Popper – uma vez que ele é um crítico ferrenho do indutivismo e da confirmação, e não se vincula à “virada linguística” – isso pode explicar porque ele aparece pouco aqui. Por outro lado, alguns volumes mais tardios se voltam para temas como a teoria bootstrap da confirmação, visões conexionistas de estrutura de teorias, e para a filosofia das disciplinas específicas, como espaço-tempo na física, no sentido mais técnico, que também não são temas trabalhados por Popper, então ele acaba aparecendo pouco.

      Acho que parte da explicação, pelo menos, talvez possa ir por aí. Um abraço, Valter

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