Astronomia e interdisciplinaridade

No ano passado, foram publicados pela Astronomical Society of the Pacific os Proceedings de um simpósio realizado em Veneza em 2009,  The Inspiration of Astronomical Phenomena VI, comemorando os 400 anos do uso do telescópio por Galileu.

Os autores participantes do simpósio, de natureza verdadeiramente interdisciplinar, trataram de aspectos da ciência, vida e obra galileanas; de temas tradicionais de história da astronomia; também foram focalizadas as relações entre astronomia e arte, música, e literatura; astronomia, religião e culturas antigas e tradicionais; e ainda astronomia e ensino. Confira o sumário neste link.

Na seção sobre Galileu, as observações telescópicas de 1609-1610 são discutidas sob variados aspectos. Na seção sobre astronomia e arte, há interessantes análises de obras de artistas plásticos, do passado e do presente, que trabalharam com temas astronômicos. Há também estudos sobre a música e a teoria musical na época de Gaileu — inclusive em sua família, pois o Galilei mais bem conhecido como músico era seu pai Vincenzo Galilei. (A propósito, uma tese sobre a teoria musical de Vincenzo acaba de sair no Brasil — Vincenzo Galilei contra o número sonoro, de Carla Bromberg, ed. Livraria da Física).

A boa notícia é que a publicação original (Astronomical Society of the Pacific Conference Series, Vol. 441), que estava disponível para compra em http://www.aspbooks.org/a/volumes/table_of_contents/?book_id=492, está agora disponível em acesso livre através do NASA/Smithsonian Astrophysics Data System, no endereço:

http://adsabs.harvard.edu/cgi-bin/nph-abs_connect?ref_stems=ASPC..441&jou_pick=YES&return_req=no_params&end_year=2012

Obrigado a Robert Van Gent e Giancarlo Truffa pela indicação, via HASTRO-L.

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Falta um mês para o Encontro Estruturalista

De 22 a 26 de Outubro de 2012 irei participar do VIII Encuentro Iberoamericano sobre Metateoría Estructuralista, na Universidad Autónoma Metropolitana, na Cidade do México. Apresentarei o trabalho intitulado “A rede teórica estruturalista dos modelos filosóficos de racionalidade científica: Um esboço”, resultado da fusão de duas linhas de pesquisa em que venho trabalhando nos últimos anos, o estudo da racionalidade científica sob uma perspectiva filosófica, e a metateoria estruturalista (proposta por Balzer, Moulines, Sneed e outros) como ferramenta de análise e reconstrução de sistemas conceituais. Os Encontros Estruturalistas têm sido um dos principais fóruns internacionais para o desenvolvimento, a reflexão crítica e a aplicação da metateoria estruturalista, cujo eixo principal, nos últimos anos, tem estado entre a Alemanha, a Península Ibérica e a América Latina.

Kuhn sob as perspectivas estruturalista e laudaniana

Está no prelo o meu artigo “Valores e incomensurabilidade: Meditações kuhnianas em chave estruturalista e laudaniana”, a aparecer na revista Scientiae Studia, v. 10, n. 3, 2012 — número temático a propósito dos 50 anos de publicação da Estrutura das revoluções científicas — no qual faço uma colocação em perspectiva e uma reinterpretação das teses de Thomas Kuhn sobre a incomensurabilidade e sobre o papel dos valores na ciência.

As várias formas de variância axiológica e metodológica, e as várias formulações que a tese da incomensurabilidade recebe nos textos de Kuhn, são mapeadas no artigo. A incomensurabilidade semântica é analisada em detalhe, ao longo das diferentes fases do pensamento de Kuhn, e a metáfora das “mudanças de mundo” é colocada em questão. Uma forma adicional de incomensurabilidade que, sustento, está latente no sistema de pensamento de Kuhn, porém até agora não havia recebido a devida atenção, é também apresentada no texto.

Aplico as perspectivas de Larry Laudan (tanto de problem-solving quanto reticulacional) e estruturalista como ferramentas que permitem delimitar o escopo das diversas formas de variância presentes na imagem de ciência de Kuhn, estabelecer os seus limites, e resgatar o lugar da metodologia científica e a possibilidade de progresso. Em particular, o estruturalismo metateórico permite formular precisamente uma maneira de se contornar a incomensurabilidade — uma idéia que fora de algum modo sugerida informalmente por alguns intérpretes de Kuhn, porém ainda de maneira incompleta, e que não se encaixava de forma coerente no seu sistema de pensamento.

A reinterpretação que proponho no artigo tenciona desarmar as consequências relativistas da imagem de ciência de Kuhn, especificamente, no que diz respeito aos aspectos “valores” e “incomensurabilidade”. Isso abre um caminho para se resgatar a preponderância da problem-solving de uma maneira mais plena na concepção kuhniana de ciência – problem-solving que fora anunciada com alarde pelo próprio Kuhn, com seu discurso sobre a “puzzle-solving” científica, na parte inicial da Estrutura, apenas para se ver depois submersa debaixo de variados mecanismos, metáforas e “armadilhas” que tiveram o efeito de bloqueá-la por completo como categoria racional.

Este artigo faz parte de uma série maior, formada por mais dois artigos sobre outros aspectos da imagem de ciência kuhniana, explorando as perspectivas que se abrem a partir dela, bem como os limites dessa imagem. Nesta série, cuja publicação deve se estender por 2012-2013, procuro fazer, enfim, um balanço do legado de Kuhn para a filosofia da ciência do final do XX e início do XXI.

Steven Shapin no 13o. SNHCT, na USP

Na semana de 3 a 6 de Setembro de 2012, no 13o. Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, realizado na USP, a conferência de abertura, na segunda-feira à noite, foi do Prof. Steven Shapin, da Universidade de Harvard.

Autor (com Simon Schaffer) do já clássico Leviathan and the air-pump: Hobbes, Boyle and the experimental life (Princeton Univ. Press, 1985) — um estudo de caso na perspectiva do modelo causal-simétrico em sociologia da ciência (também chamado de “strong programme”, o “programa forte”) — Shapin irá ter o seu mais recente livro, Never Pure:  Historical Studies of Science as if It Was Produced by People with Bodies, Situated in Time, Space, Culture, and Society, and Struggling for Credibility and Authority (Johns Hopkins Univ. Press, 2010), publicado no Brasil até o final de 2012, pela editora Fino Traço e EDUEPB.

Na conferência do dia 03/09, Shapin falou sobre a questão da identidade do cientista — de como essa identidade, tanto a socialmente percebida quanto a auto-imagem — passou por transformações profundas entre o século XIX e o início do XXI. Ele tem uma dicção excelente, diga-se de passagem, o que tornou bem fácil acompanhar o seu inglês.

No Programa de Pós-Graduação em Ensino, História e Filosofia das Ciências e Matemática, trabalhei com uma de minhas orientandas o livro de Shapin sobre Boyle e Hobbes, e pudemos apreciar a diferença que se estabelece entre uma metaciência com pretensão descritiva e explicativa (programa “forte”) e uma metaciência filosófica e normativa (Hugh Lacey).

A qualidade das fotos nesta página (tiradas no anfiteatro de História da USP) não está grande coisa — eu estava sem um aparelho bom naquela ocasião — mas serve como registro. Parabéns à Sociedade Brasileira de História da Ciência pela organização do evento, que foi um sucesso.

V Seminário de HFC

Já está disponível a programação do V Seminário de História e Filosofia da Ciência, que nesta edição será realizado no Campus São Bernardo da Universidade Federal do ABC, de 26 a 29 de Novembro de 2012. O autor deste blog irá participar tanto como expositor (com a palestra “Cento e vinte anos de redes: Da metáfora à estrutura”) quanto como comentador na sessões de discussão. As minhas alunas Taimara Passero e Lígia Gomes irão participar das sessões de comunicação, apresentando, respectivamente, com os trabalhos: “O experimento de Michelson-Morley: primeiras considerações sobre seu desenvolvimento e influência ou não para o pensamento de Einstein sobre a relatividade restrita” e: “O cientista, a guilhotina e os valores”, este versando sobre a revolução química vista sob uma perspectiva laceyiana.

Scientiarum Historia V

Acontece de 12 a 14 de Novembro de 2012 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, CCMN – Ilha do Fundão, o Scientiarum Historia V, Quinto Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, que tem como tema “Filosofia, ciências e artes: Conexões interdisciplinares”. A realização é do HCTE – Programa de Pós-Gradução em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia. Confira a programação.