Filosofia (e Universidade) numa encruzilhada

Foi publicado na Folha de São Paulo do dia 05/11/12 um texto provocativo de Luiz Felipe Pondé, intitulado “O filósofo do martelo na academia”, sobre o tema da inserção institucional da Filosofia dentro do sistema acadêmico atual, e sobre o modo de atuação que, segundo o autor, ela tem adotado nas últimas décadas. A pergunta colocada é: em que tem consistido o fazer Filosofia no Brasil ultimamente? A resposta dada por Pondé é a mais crítica possível. Leia o texto. Claro que trata-se de uma generalização, com todos os riscos inerentes às generalizações. Poderíamos aproveitar o ensejo para perguntar: como andam as exceções a essa regra, se é que as há? Onde estão? Quantas são? Estamos entre elas?

Suspeito que uma descrição muito semelhante, senão igual, é aplicável a outras áreas do conhecimento — e até de forma mais contundente. Paraceria que a Filosofia chega relativamente “tarde” a esse modus operandi, a essa dinâmica, que já havia sido abraçada entusiasticamente — e até apoiada — em outras áreas. Nesse caso, o que teríamos diante de nós é uma doença que aflige toda a Academia. Não têm faltado alertas nesse sentido. Um dos mais contundentes foi feito há dois anos, no I Simpósio Nacional de Avaliação Científica, encampado pela Sociedade Brasileira de Física. Na mesma época, saiu também o Slow Science Manifesto.

A propósito, um crítico muito articulado daquilo que costuma denominar os underlabourers da Filosofia atual é o polêmico Steve Fuller, do Departamento de Sociologia da Universidade de Warwick (autor de The sociology of intellectual life: The career of the mind in and around the academy; The Philosophy of science and technology studies; Kuhn vs Popper: The struggle for the soul of science; The intellectual: The positive power of negative thinking; e de Thomas Kuhn: A philosophical history for our times, entre outros).

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Hoje é o aniversário de Alexandre Koyré

Alexandre Koyré completaria hoje 120 anos. Mais conhecido como o autor do já clássico From the closed world to the infinte universe, de 1957, leitura obrigatória para toda gente que se interessa pela Revolução Astronômica dos séculos XVI-XVII e pela Revolução Científica do século XVII (bem como seus antecedentes renascentistas), o grande historiador da ciência e filósofo Koyré (1892-1964) também escreveu muitas outras obras.

Títulos como Études galiléennesThe Astronomical Revolution: Copernicus-Kepler-Borelli, Metaphysics and measurement: Essays in Scientific Revolution, Newtonian studies, Ensaios de história do pensamento científico e Ensaios de história do pensamento filosófico são coleções de ensaios que assombram, cada um deles individualmente, pelo fôlego, pela sutileza historiográfica, pela erudição e pela defesa coerente de uma determinada visão de cultura, ciência, pensamento e história.

Koyré pode talvez ser considerado um tanto “racionalista”, “intelectualista” ou “internalista” demais para o gosto, digamos, mais subjetivista, contingente e externalista da historiografia da ciência mais recente — assim como por certa historiografia mais empirista da primeira metade do século XX. Porém o certo é que, se olharmos para o plano conceitual do desenvolvimento da ciência, suas análises são incontornáveis, impossíveis de não se levar em conta, ainda hoje.

Parafraseando o que disse o crítico Antonio Candido por ocasião da morte do poeta João Cabral de Melo Neto, a obra de Koyré continuará proporcionando alimento, conforto e desafios para muitas gerações que ainda estão por vir.

Alguns textos de Koyré estão disponíveis através da Antologia de textos do meu site de Filosofia e História da Ciência: “O significado da síntese newtoniana”, “As etapas da cosmologia científica”, e (externo) dois capítulos de From the closed world to the infinite universe.

Novidades na antologia de textos do site

Vários textos novos (ou links novos) estão disponíveis na Antologia de textos do meu site:

BACHELARD, Gaston – “A complexidade essencial da filosofia científica” – A densa introdução ao clássico livro O novo espírito científico.

BLOOR, David – “The strong programme in the sociology of knowledge” – O manifesto clássico do modelo causal / simétrico, também conhecido como “programa forte”, da sociologia da ciência. [Link externo]

CONDILLAC, Etienne Bonnot de  – Tratado dos sistemas (capítulos selecionados) – Uma formulação ao mesmo tempo radical e sofisticada do empirismo do século XVIII, pelo autor citado por Lavoisier.

GRANGER, Gilles-Gaston – “Filosofar sobre a filosofia” – Capítulo 1 do livro Por um conhecimento filosófico.

KUHN, Thomas S. – “The function of dogma in scientific research” – Texto de 1963, sintetizando as principais teses da primeira parte do livro A estrutura das revoluções científicas (que completa 50 anos de publicação neste ano de 2012).

NASCIMENTO, Maria das Graças – “Cartesianismo e ilsutração” – Texto ao mesmo tempo sucinto e profundo, analisando a ruptura do Iluminismo com a ciência e a filosofia cartesianas. [Link externo para a edição online da revista Analytica]

E mais: links externos para sites com capítulos selecionados de Olivier Darrigol (Electrodynamics from Ampère to Einstein), Alexandre Koyré (From the closed world to the infinite universe) e Richard Westfall (The construction of modern science: Mechanisms and mechanics).

Confira tudo isso e muito mais na Antologia.

A institucionalização do ensino de Filosofia

Desde a recente inserção “oficial” da Filosofia como disciplina no currículo do ensino médio, tem havido um grande impulso à reflexão e à pesquisa sobre o ensino de Filosofia. Em certa medida, o próprio curso de Licenciatura em Filosofia da UFABC e os eventos realizados na UFABC sobre temas afins inserem-se dentro desta retomada. (Isso para não falar da onda de revistas de grande tiragem, livros e vídeos sobre Filosofia nos últimos anos.)

O Prof. Walter Kohan, da UERJ, concedeu uma entrevista extremamente lúcida e equilibrada ao site da ANPOF (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia) sobre vários desdobramentos, pressupostos e riscos envolvidos no processo de “institucionalização escolar” da Filosofia. Leitura indispensável tanto para quem já se preocupa com o tema quanto para quem deseja entender melhor que conversa é essa, de Filosofia na escola, afinal.

Conferência na UFABC – 30/03

Acontece nesta sexta-feira, dia 30/03/2012, na UFABC em São Bernardo, a conferência “Consciência global, planetária e cosmopolítica”, que será apresentada pela a. Sorya Nour, pesquisadora da Universidade Paris X e da Universidade Autônoma de Lisboa.

Horário e local: Às 14h00, no auditório do Bloco Sigma da Universidade Federal do ABC – Rua João Pessoa, 59 – São Bernardo. Iniciativa dos Cursos de Bacharelado e Licenciatura em Filosofia e do Centro de Ciências Naturais e Humanas da UFABC.

Fonte: Prof. Dr. Fernando Mattos (CCNH)

Princípio de propagação das questões

Eis aqui o “Princípio de propagação das questões”, comentado nas aulas de Teoria do Conhecimento: Empirismo e Racionalismo, em duas formulações: a de Hume…

“Cada solução dá continuamente lugar a uma nova questão tão difícil quanto a anterior, e leva-nos cada vez mais longe em nossas investigações.”

[D. Hume, Uma investigação sobre o entendimento humano, Seção IV, Parte 2. In: Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. por J. O. de Almeida Marques. São Paulo: Editora da Unesp, 2004.]

… e a formulação de Kant:

“Por onde quer que comecemos, toda resposta dada de acordo com os princípios da experiência sempre coloca uma nova questão que também requer uma resposta.”

[I. Kant, Prolegomena to any Future Metaphysics That Will be Able to Come Forward as Science, with Selections from the Critique of the Pure Reason, p. 103. (“Prolegômenos a toda metafísica futura que venha a se apresentar como ciência, com seleções da Crítica da razão pura”.) Trad. por Gary Hatfield. Edição revisada. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.]