Programa da disciplina de Filosofia da Ciência BH1400

[CORRIGIDO] Esta é a programação da disciplina de Filosofia da Ciência: Em torno à concepção ortodoxa (BH1400) para o 1o. Quadrimestre de 2013. Os links para os textos encontram-se na Antologia de Textos do Site, indicados pela sigla [FC].

26/04 – Apresentação da disciplina

03/05 – Hahn, Carnap & Neurath – “A concepção científica de mundo: o Círculo de Viena”, Parte 1. Textos complementares: Ernest Mach – Análise das sensações, Cap. 1, e Pierre Duhem – “Algumas reflexões sobre as teorias físicas”.

10/05 – Hahn, Carnap & Neurath – “A concepção científica de mundo”, Parte 2.

17/05 – C. G. Hempel – “Problemas y cambios en el criterio empirista de significado” (1950), Parte 1.

24/05 – C. G. Hempel – “Problemas y cambios en el criterio empirista de significado” (1950), Parte 2. [Texto complementar: Hempel – “Criterios empiristas de significación cognoscitiva: Problemas y cambios” (1965).]

[31/05 – Ponto facultativo pelo calendário acadêmico]

07/06 – Herbert Feigl – “A visão ‘ortodoxa’ de teorias: Comentários para defesa assim como para crítica”, Parte 1

14/06 – Herbert Feigl – “A visão ‘ortodoxa’ de teorias: Comentários para defesa assim como para crítica”, Parte 2. [Texto complementar: F. Suppe, “The search for philosophical understanding of the structure of scientific theories”.]

21/06 – M. Schlick – “O fundamento do conhecimento”

28/06 – O. Neurath – “Proposiciones protocolares”

05/07 – O. Neurath – “Pseudorracionalismo de la falsación”. N.B.: Entrega do trabalho da disciplina (nova data).

12/07 – Peter Galison – “Aufbau/Bauhaus: Logical positivism and architectural modernism”

Adeus ao veterano

Leônidas Hegenberg diante do prédio de Filosofia, em Berkeley, 1961 (Fonte: Lélio R. de Paula, Assoc. dos Engenheiros do ITA)

No dia 28 de novembro de 2012 morreu Leônidas Hegenberg, um dos pioneiros da Filosofia da Ciência no Brasil, juntamente com Oswaldo Porchat, Oswaldo Chateaubriand, Gilles-Gaston Granger e Hugh Lacey — como já havíamos salientado (eu, Edu Barra e Irinéa Batista) vários anos atrás. Hegenberg, nascido em 1925, teve uma tripla formação de de graduação (Filosofia, Matemática e Física), e  foi orientado no seu doutorado na USP pelo saudoso mestre Edison Farah. Foi professor do ITA durante quase quatro décadas, no Departamento de Humanidades.

Durante décadas, o primeiro contato de muitos filósofos com esse campo (inclusive deste que vos escreve) foi por meio dos livros de Hegenberg — entre os quais estão Explicações científicas: Introdução à filosofia da ciência (1969), Etapas da investigação científica (2 volumes, 1976),  Significado e conhecimento (1975), Definições, termos teóricos e significado (1974) — ou clássicos do século XX traduzidos por ele (muitas vezes em parceria com Octanny S. da Mota) — como Popper, Feyerabend, Stegmüller, Brian Skyrms e outros.

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Por meio de seus textos e traduções, Hegenberg contribuiu muito para tornar a comunidade filosófica brasileira atualizada em relação às tendências mais atuais da época — especialmente nos anos 70, quando foi um dos primeiros a falar sobre Sneed e a metateoria estruturalista em português. Também escreveu vários textos elementares de lógica, como Lógica: simbolização e dedução, Lógica: O cálculo sentencial, Lógica: O cálculo de predicados, e Lógica – Exercícios I, II, III e IV, que são populares até hoje.

No blog Usina de Escuta, falo sobre a maneira pela qual Hegenberg, por via indireta, também me influenciou na música.

O filho do filósofo,  Flávio Hegenberg, organizou uma simpática coletânea de crônicas e artigos, intitulada Ensaios de Leônidas Hegenberg (E-Papers, 2008). O filósofo português Desidério Murcho escreveu um post no seu conhecido site/blog Crítica na Rede sobre Hegenberg.

Filosofia (e Universidade) numa encruzilhada

Foi publicado na Folha de São Paulo do dia 05/11/12 um texto provocativo de Luiz Felipe Pondé, intitulado “O filósofo do martelo na academia”, sobre o tema da inserção institucional da Filosofia dentro do sistema acadêmico atual, e sobre o modo de atuação que, segundo o autor, ela tem adotado nas últimas décadas. A pergunta colocada é: em que tem consistido o fazer Filosofia no Brasil ultimamente? A resposta dada por Pondé é a mais crítica possível. Leia o texto. Claro que trata-se de uma generalização, com todos os riscos inerentes às generalizações. Poderíamos aproveitar o ensejo para perguntar: como andam as exceções a essa regra, se é que as há? Onde estão? Quantas são? Estamos entre elas?

Suspeito que uma descrição muito semelhante, senão igual, é aplicável a outras áreas do conhecimento — e até de forma mais contundente. Paraceria que a Filosofia chega relativamente “tarde” a esse modus operandi, a essa dinâmica, que já havia sido abraçada entusiasticamente — e até apoiada — em outras áreas. Nesse caso, o que teríamos diante de nós é uma doença que aflige toda a Academia. Não têm faltado alertas nesse sentido. Um dos mais contundentes foi feito há dois anos, no I Simpósio Nacional de Avaliação Científica, encampado pela Sociedade Brasileira de Física. Na mesma época, saiu também o Slow Science Manifesto.

A propósito, um crítico muito articulado daquilo que costuma denominar os underlabourers da Filosofia atual é o polêmico Steve Fuller, do Departamento de Sociologia da Universidade de Warwick (autor de The sociology of intellectual life: The career of the mind in and around the academy; The Philosophy of science and technology studies; Kuhn vs Popper: The struggle for the soul of science; The intellectual: The positive power of negative thinking; e de Thomas Kuhn: A philosophical history for our times, entre outros).

Aproveite e comente logo abaixo deste post.

Ernst Mach – The Analysis of Sensations

O trecho de Ernst Mach comentado nas aulas de Teoria do Conhecimento: Empirismo e Racionalismo dos dias 05/03 (Diurno) e 07-14/03 (Noturno), em conexão com a nossa leitura de Hume, encontra-se transcrito abaixo, e o original em inglês pode ser acessado através de um link na Antologia de textos do meu site.

«Para nós, portanto, o mundo não consiste em entidades misteriosas, as quais, por sua interação com outra entidade igualmente misteriosa, o Eu, produziriam sensações, as quais seriam (e apenas elas) acessíveis. Para nós, as cores, sons, espaços, tempos, etc, são provisoriamente os elementos finais, cuja conexão dada nos cabe investigar. […]

É precisamente nisto que consiste a exploração da realidade. Nessa investigação, não devemos nos deixar atrapalhar por abreviações e limites tais como corpo, ego, matéria, espírito, etc, que foram formulados com propósitos práticos e específicos, e tendo em vista fins totalmente provisórios e limitados. Ao contrário, as formas de pensamento mais adequadas devem ser criadas dentro da pesquisa e pela própria pesquisa, como acontece em todas as ciências particulares. Em vez dos modos tradicionais e instintivos de pensar, deve-se colocar uma visão mais livre e inédita, que se adapta à experiência que se desdobra, e que vai além dos requisitos da vida prática. […]

A ciência sempre tem sua origem na adaptação do pensamento a algum campo definido da experiência. […]

Tudo o que nos importa é a descoberta de relações funcionais, e o que queremos conhecer é meramente a dependência das experiências umas com as outras. Torna-se óbvio, então, que a referência a variáveis fundamentais desconhecidas, que não são dadas (as “coisas-em-si”) é puramente fictícia e supérflua.»

[Ernst Mach, The Analysis of Sensations (1897), Capítulo 1, seções 13 e 14. Trad. inglesa por C. M. Williams e Sydney Waterlow. New York: Dover, 1959. Trad. do inglês por V. A. Bezerra.]

Newton — Regras do raciocínio em filosofia

O trecho de Newton comentado nas aulas de Teoria do Conhecimento: Empirismo e Racionalismo de 05/03 (Diurno) e 07-14/03 (Noturno), em conexão com a nossa leitura de Hume, está transcrito abaixo e pode ser encontrado também na Ant0logia de textos do meu site.

1a. Regra [Princípio da parcimônia (Navalha de Ockham)]

«Não devemos admitir mais causas para as coisas naturais do que aquelas que forem verdadeiras e suficientes para explicar as suas aparências. É com esse objetivo que os filósofos dizem que a Natureza não faz nada em vão, e quando o menos já basta, o mais é em vão; pois a Natureza se agrada da simplicidade, e não lhe cabe a pompa das causas supérfluas.»

2a. Regra [Similaridade de efeitos permite inferir similaridade de causas]

«Portanto, aos mesmos efeitos naturais devemos, na medida do possível, atribuir as mesmas causas. Tal como, por exemplo, para a respiração no homem e nos animais; a queda das pedras na Europa e na América; a luz do fogo de cozinhar e do Sol; a reflexão da luz na Terra e nos planetas.»

3a. Regra [Princípio de universalidade ou ampliatividade]

«As qualidades dos corpos que não admitirem nem aumento nem diminuição de grau, e que se concluir pertencerem a todos os corpos ao alcance de nossos experimentos, devem ser tomadas como sendo as qualidades universais de todos os corpos.»

4a. Regra [Indução]

«Na filosofia experimental devemos encarar as proposições inferidas a partir dos fenômenos por indução geral como sendo precisamente ou aproximadamente verdadeiras, a despeito de quaisquer hipóteses contrárias que possam ser imaginadas, até que ocorram outros fenômenos, pelos quais elas podem ser tornadas mais precisas ou suscetíveis de exceções. Devemos seguir esta regra, de que o argumento por indução não pode ser evitado por hipóteses.»

— Isaac Newton, Mathematical Principles of Natural Philosophy, trad. ingl. por A. Motte / F. Cajori, in: Great Books of the Western World, Volume 34 – Newton/Huygens, pp. 270-271. Chicago / London / Toronto: Encyclopaedia Britannica, 1952. Trad. port. por V. A. Bezerra.

Minnesota Studies in the Philosophy of Science agora online

Um corte transversal em mais de meio século de filosofia da ciência. Um verdadeiro acontecimento editorial, no âmbito da literatura acadêmica contemporânea em filosofia, com reverberações em áreas tão diversas quanto a física, a ciência cognitiva, a matemática, a lógica, a história da filosofia, a psicanálise, a psicologia, a história, a sociologia da ciência. Uma profusão de textos e autores que se tornaram (a maioria deles) nada menos do que clássicos da filosofia contemporânea da ciência. Uma rica e vasta porção sistemática do que de melhor se produziu na metaciência do século XX. Um exemplo esplêndido do uso da Internet no sentido de democratizar o acesso ao conhecimento da mais sofisticada extração.

A Wilson Library, no campus Twin Cities da Universidade de Minnesota, o mesmo onde está localizado o Centro de Filosofia da Ciência (Fonte: Maira's Library Blog)

De todas essas formas pode ser descrita a série Minnesota Studies in the Philosophy of Science, gestada nos seminários do hoje lendário centro de pesquisa, que agora aparece na íntegra em formato eletrônico e acesso livre. É até um tanto difícil falar objetivamente sobre volumes que foram minhas leituras constantes, que de tal forma me alimentaram durante décadas, mas vamos tentar.

Um dos temas que perpassam a coleção é, claramente, a substituição da filosofia do empirismo lógico — após ter definido rumos de investigação durante algumas décadas, e ter realizado uma minuciosa autocrítica –, primeiro pela filosofia da “virada historiográfica”, e depois pelo naturalismo e pelos enfoques computacionais. Outro tema — mais um dentre os múltiplos trajetos que podem ser percorridos — é a teoria geral da ciência cedendo cada vez mais espaço à filosofia das ciências particulares.

Os três primeiros volumes — The foundations of science and the concepts of psychology and psychoanalysis, de 1956; Concepts, theories and the mind-body problem, de 1958; e Scientific explanation, space and time, de 1962 — são dominados por um “primeiro time”, ligado — seja por adesão, seja por oposição — à agenda de problemas do empirismo lógico tardio: Carnap, Scriven, Sellars, Feigl, Hempel, Grover Maxwell. Textos sólidos, sistemáticos, laboriosos, fazendo jus ao que de melhor o empirismo lógico nos deixou como exemplo. O volume 1 apresenta, entre vários outros, nada menos que dois textos clássicos, dos que figuram em qualquer antologia: “The methodological character of theoretical concepts”, de Carnap, e “Empiricism and the philosophy of mind”, de Sellars. De contrapeso, ninguém menos do que Skinner, o behaviorista-mor, em uma peça polêmica, “Critique of psychoanalytic concepts and theories”. No volume 2, entre muitos outros, mais dois clássicos: o de Hempel, “The theoretician’s dilemma: a study in the logic of theory construction”, em cuja parte final o autor analisa o teorema de Craig e a sentença de Ramsey; e “The ‘mental’ and the ‘physical'”, de Feigl. No volume 3, a resposta provocativa de Grover Maxwell a Carnap, intitulada “The ontological status of theoretical entities”, além, entre outros, de um esforço tardio de sistematização de Hempel, “Deductive-nomological vs. statistical explanation” — material que viria a ser incorporado em seu Aspects of scientific explanation and other essays in the philosophy of science, de 1965 — sem esquecer o texto de Adolf Grünbaum, “Geometry, chronometry and empiricism”, trabalhando temas presentes em seu Philosophical problems of space and time, de 1963.

No volume 3, de 1962, encontramos o artigo marcante de Paul Feyerabend, “Explanation, reduction and empiricism”, um de seu primeiros ataques de fôlego à received view; e no volume 4, de 1970, encontramos o seu artigo “Against method: outline of an anarchistic theory of knowledge” — o qual, depois de muitas expansões e reelaborações (e graças aos debates com Lakatos e, por que não, à sua influência), seria um dos embriões que dariam origem ao célebre livro Contra o método. Neste mesmo volume 4, Analyses of theories and methods of physics and psychology, encontramos textos de Carl Hempel e de Herbert Feigl que hoje soam como cantos do cisne para a received view (o segundo destes, já traduzido em português).

No volume 5, Historical and philosophical perspectives of science, encontramos o clássico de Ernan McMullin (cujo recente falecimento foi noticiado neste blog), “The history and philosophy of science: a taxonomy”, juntamente com três tours de force sobre a eletrodinâmica, de Howard Stein, Kenneth Schaffner e Roger Stuewer (com direito a comentários de Mary Hesse). Feyerabend aproveita para deixar novamente clara a sua veia provocativa, com “Philosophy of science: a subject with a great past”.

No volume 6, de 1975, Induction, probability and confirmation, começamos a testemunhar algo como uma mudança de geração. Veteranos como Grover Maxwell, Mary Hesse e Wesley Salmon aparecem lado a lado com filósofos mais jovens, como Paul Teller, Jeffrey Bub e Ronald Giere, trazendo novos aportes para as questões da lógica indutiva, probabilidade, confirmação e bayesianismo.

Duas páginas do artigo de David Malament no Volume 8

A mesma tendência se observa no volume 8, de 1977, Foundations of space-time theories, onde despontam nomes como Michael Friedman, Clark Glymour, David Malament e Lawrence Sklar, entre outros, todos dedicando-se a um mergulho profundo nos temas mais espinhosos da filosofia da física, em particular os fundamentos das teorias da relatividade restrita e geral. O que temos aqui? Questões ancestrais da agenda filosófica — de metafísica, de teoria do conhecimento, de lógica e teoria de categorias, de metodologia — reformuladas e transpostas para o contexto da física contemporânea? Ou questões de fundamento que insistem em reaparecer, aqui e ali, em meio à prática da física, convidando a (e às vezes exigindo) uma abordagem filosófica? Talvez ambas as formas de ver a discussão não sejam mutuamente excludentes. No texto “Absolute and relational theories of space-time”, de Adolf Grünbaum, o veterano filósofo ainda mostra-se capaz de propor o mapa do caminho.

Entre os autores que contribuem para o volume 7, Language, mind, and knowledge, encontramos nada menos que Chomsky, Dennett, Jerrold Katz, John Searle, Gilbert Harman, David Lewis e Hilary Putnam, este com seu desafiador “The meaning of ‘meaning'” — mais um dos trabalhos definidores de rumos oriundos da pena do velho mestre (comparável aos igualmente influentes “What theories are not” e “Is logic empirical?”).

O sumário do Volume 9

No volume 9, Perception and cognition: Issues in the foundations of psychology, de 1978, Dennett e Gilbert Harman reaparecem ao lado de nomes como Jerry Fodor, Fred Dretske, Zenon Phylyshyn e Cliff Hooker, sem esquecer Herbert Simon (que naquele mesmo ano ganhara o Prêmio Nobel), todos traçando um panorama da nova filosofia da mente, onde tendências como a computacional e a naturalista começam a dominar o cenário. O recorte adotado apresenta um marcado contraste com as abordagens do volume 7: aqui, estamos claramente em mais uma fase de transição.

O já citado Glymour reaparece dando o tom do volume 10, de 1983, Testing scientific theories, um simpósio voltado para a sua teoria do bootstrap testing desenvolvida no livro Theory and evidence, de 1980. Bas Van Fraassen — que no mesmo ano de Glymour publicara o seu The scientific image, no qual defende o empirismo construtivo que hoje se mostra extremamente fecundo — contribui com dois textos, e Grünbaum volta-se para os temas da psicanálise, que na fase da maturidade passaram a dividir espaço em sua obra com as análises sobre tempo, causalidade e relatividade.

O volume 11, History and philosophy of modern mathematics, de 1988, apresenta tanto estudos de caso conceituais (sobre a análise não-standard de Robinson, sobre o Programa Erlangen de Felix Klein — este, co-autorado por ninguém menos que Garrett Birkhoff, algo como a história viva da matemática contemporânea — , o desenvolvimento da teoria clássica da probabilidade, o logicismo da virada do século XIX para o XX) quanto estudos de história institucional da matemática. Junte-se a isso, ainda no volume 11, um texto de Michael Friedman no qual o empirismo lógico já passa a ser objeto de estudo histórico: “Logical truth and analiticity in Carnap’ s Logical syntax of language“, que prenuncia a voga dos estudos tipo-HOPOS sobre a história do positivismo lógico (este texto viria a fazer parte do seu livro Reconsidering logical positivism, de 1999).

Esta vertente de estudos sobre o empirismo encontra expressão ainda mais plena no volume 12, Rereading Russell: Essays in Bertrand Russell’s metaphysics and epistemology, de 1989, em cujos capítulos são focalizados temas como a teoria dos tipos, o manuscrito Theory of knowledge e a concomitante interação com Wittgenstein, os problemas da indução, o imortal texto “On denoting”. Chamo a atenção para uma valiosa peça de Demopoulos e Friedman que resgata o conceito de estrutura no épico (o termo não poderia ser senão este) Analysis of Matter, de 1927.

O volume 13, intitulado simplesmente Scientific explanation, é capitaneado pelo grande expoente contemporâneo do tema, Wesley Salmon, que nos presenteia com a monumental revisão histórica com mais de 200 páginas, “Four decades of scientific explanation”. Autores de ponta como Nancy Cartwright, David Papineau, Peter Railton, Philip Kitcher, Matti Sintonen, Merrilee Salmon e James Woodward mapeiam diversos ângulos do venerável tema sob pontos de vista atuais.

Finalmente (por enquanto), o volume 14, com título ainda mais sucinto, Scientific theories,  nos presenteia com várias e surpreendentes reentradas em cena: primeiro, de Thomas Kuhn, com “Dubbing and redubbing: The vulnerability of rigid designation”, onde o antes controverso autor (sobre o qual já escrevemos neste mesmo blog) continua a trabalhar, em sua fase pós-Estrutura, o tema da incomensurabilidade, em termos das noções de tradução, metáfora, léxico e referência — um avanço rumo a uma maior sutileza interpretativa, diria ele; um recuo conservador, dirão seus críticos. Ao mesmo tempo, Salmon faz um exercício de releitura do mesmo Kuhn, em “Rationality and objectivity in science, or: Tom Kuhn meets Tom Bayes”. Além disso, Larry Laudan retoma o tema da subdeterminação empírica, já na fase pós-Progress and Its Problems e pós-Science and Values, em seu “Demystifying underdetermination”. O velho mestre Grünbaum retoma o seu novo tema de interesse, a psicanálise; John Worrall explora as interpretações kunhianas da história da ciência à luz do seu racionalismo crítico de tipo realista-estrutural; e Paul Churchland expõe seu programa naturalizante em “On the nature of theories: A neurocomputational perspective”. Richard Boyd, escrevendo sobre o tema do realismo científico, Eliott Sober, o veterano Brian Skyrms e o “neopopperiano-bayesiano” Colin Howson, entre outros, integram o volume.

Este tesouro intelectual está disponível agora na íntegra (14 volumes até 1990) para todo o público interessado. (Quanto aos volumes 15[1992] a 19[2006] — intitulados Cognitive models of science, Origins of Logical Empiricism, Quantum Measurement: Beyond paradox, Logical empiricism in North America e Scientific Pluralism — deles estão disponíveis, por enquanto, apenas os ensaios introdutórios.) O Minnesota Center for the Philosophy of Science deve ser efusivamente parabenizado pela demonstração de descortino, espírito público e fidelidade à sua missão acadêmica, ao tomar a iniciativa de colocar todo esse material, de valor simplesmente inestimável, disponível sob a forma de acesso livre.

Seleção para Mestrado em Filosofia da Ciência – UFABC

[VERSÃO ATUALIZADA EM 22/09/2011] Estão abertas até 07/10/2011 as inscrições para o processo seletivo 2011 do Mestrado em Ensino, História e Filosofia das Ciências e Matemática da Universidade Federal do ABC em Santo André (SP). Há disponibilidade de bolsas (consultar a coordenação do Programa ou a secretaria de Pós-Graduação). Disponibilizei duas vagas neste processo seletivo. Em vista do número de candidatos já inscritos comigo como orientador efetivo, não estou mais recebendo solicitações relativas a orientação.

Ultra-resfriamento de átomos por laser

Ultra-resfriamento de átomos por laser

O tema escolhido pelo(a) candidato(a) a uma vaga deverá necessariamente estar inserido nas áreas de Filosofia da Ciência ou História da Ciência ou Epistemologia, e precisará se encaixar dentro de uma das seguintes linhas de pesquisa:

  1. Estrutura e dinâmica de teorias científicas
  2. Modelos em ciência
  3. Modelos filosóficos de racionalidade científica
  4. Teorias da justificação epistêmica
  5. História da Filosofia da Ciência
  6. História da Revolução Astronômica
  7. História do mecanicismo
  8. História da mecânica e da teoria do campo
  9. Fundamentos da mecânica quântica
Modelo planetário de Kepler (1596)

Modelo planetário de Kepler (1596)

O processo seletivo da UFABC será realizado por bancas a serem constituídas, e usualmente se compõe de três etapas:

  • Análise do pré-projeto de pesquisa;
  • Análise do currículo;
  • Entrevista.

A lista de documentos requeridos para inscrição está no edital. O sistema de cartas de pré-aceite, usado no processo seletivo anterior, foi modificado, tendo sido substituído pela indicação de um orientador efetivo e um segundo nome para compor a banca e possível co-orientador. Solicita-se que os candidatos interessados em consignar o meu nome como segundo nome em suas inscrições consultem-me sobre isso com antecedência.

Bibliografia

Bibliografia

A aceitação de candidatos depende dos seguintes fatores:

  • Uma entrevista comigo (anterior à entrevista de seleção), onde, entre outros aspectos considerados, o(a) candidato(a) deverá demonstrar familiaridade com pelo menos uma referência bibliográfica relevante (à sua escolha) que já tenha lido a respeito do tema específico pretendido. (Em data a ser marcada.)
  • Prova básica de redação acadêmica (em data a ser marcada).
  • Compromisso, por parte do(a) candidato(a), de dedicação constante ao estudo e à redação de textos.
Estudo

Estudo

  • No caso das linhas de pesquisa 6 a 9 acima, é preciso que o candidato tenha graduação em alguma área científica (para a linha 9, essa área terá que ser necessariamente a Física).
  • Já com relação às linhas de pesquisa 1 a 3, é desejável que o candidato tenha tido pelo menos algum contato formal com alguma área científica (disciplinas optativas, curso de extensão, etc).
  • Finalmente, no caso das linhas de pesquisa 4 e 5 acima, é indispensável que o candidato tenha formação em Filosofia.

Os candidatos podem entrar em contato comigo, no endereço eletrônico valter . bezerra @ ufabc . edu . br (sem os espaços). [Ver observações em vermelho acima.] O meu currículo Lattes pode ser consultado em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4792145H8  Meu site de ensino e pesquisa pode ser acessado em: http://sites.google.com/site/filosofiadacienciaufabc/

Dúvidas sobre o processo seletivo devem ser endereçadas à coordenação ou vice-coordenação do Programa, ou à Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFABC. Boa sorte e bons estudos!