O dilema da Seção VIII, Parte II da Investigação

A seguir, apresenta-se um esquema da objeção possível, antecipada por Hume, à sua doutrina necessitarista, na Seção VIII, Parte II da Investigação sobre o entendimento humano. A objeção, apresentada no parágrafo 78 (ed. Pensadores) / 32 (ed. Unesp), tem a forma clássica de um dilema.

(i) Se as ações voluntárias estão sujeitas às mesmas leis da necessidade que as operações da matéria, então há uma cadeia contínua de causas necessárias, preordenadas e predeterminadas, que vão desde a causa primeira de todas as coisas até cada ato particular de volição de cada criatura humana.

Nesse caso,

(ii) (a) Ou nenhuma ação humana é torpe, pois procede de um Criador no qual não há torpeza nenhuma,

(ii) (b) Ou então, se há torpeza nas ações humanas, estas devem envolver o Criador na mesma culpa, na medida em que Ele seria a causa e autor primeiro de tudo o que se segue.

(iii) Devemos concluir, então, de (a) e (b), que ou (c) essas ações não são criminosas — assim dissolvendo a distinção entre o bem e o mal moral — ou (d) ou que a Divindade tem em si a torpeza moral — retirando assim dEle o atributo da perfeição.

(iv) Ora, ambas essas posições são “absurdas e ímpias” (expressão de Hume).

(v) Logo, segue-se que a doutrina da qual elas são deduzidas (i) não pode ser verdadeira.

Como preservar a doutrina original? Pegando, como se diz, no linguajar filosófico tradicional, “o dilema pelos cornos”, i.e. desarmando-os. Hume acredita ter conseguido desarmar, nos parágrafos 79-80 (34-35) o corno (a) do dilema, por meio da sua crítica aos argumentos que invocam a noção de “totalidade”.

Quanto ao corno (b) do dilema, Hume é bem menos assertivo (ver o último parágrafo da seção VIII). Os caminhos que se abrem para Hume são, então, esquematicamente, os seguintes:

(1) Aceitar o corno (ii) (b) do dilema e preservar o necessitarismo em sua forma completa (i). O parágrafo se inicia sugerindo este caminho, que, claro está, não seria bem recebido por muitos setores, em sua época.

(2) Rejeitar o corno (ii) (b) argumentando que, na medida em que ele versa sobre atributos da Divindade, ele cai fora do âmbito daquilo que poderia ser discutido racionalmente em termos empiricamente significativos. O final do parágrafo parece apontar nesta direção.

(3) Uma terceira possibilidade seria rejeitar a formulação dada à premissa (i) e tentar preservar uma versão “minimalista” do necessitarismo: segundo este enfoque, uma coisa seria falar sobre a conexão necessária, entendida como “conjunção habitual + inferência”; já outra coisa bem diferente seria falar sobre uma “cadeia de causas que remonta à causa primeira” — ainda mais em vista das duras críticas que Hume faz à busca de causas fundamentais” nas seções IV e VIII –, e isso não seria essencial para manter um necessitarismo “minimal”.

 

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Filosofia em pedacinhos

A Universidade de Nancy 2, na França, juntamente com os Archives Henri Poincaré, lançou uma série de vídeos intitulada “A filosofia em pedacinhos” (La philo en petits morceaux), criados por Philippe Thomine e com animação realizada por Nicolas Mathis.

Os vídeos, de curta duração (entre 4 e 5 minutos cada) abordam, em linguagem simples, vários temas de filosofia da ciência e de epistemologia — como mudanças de paradigma, os paradoxos em lógica e em teoria de conjuntos, a filosofia da mente, os problemas da causalidade, etc.

Os 6 vídeos originais podem ser assistidos no site do projeto. Um dos vídeos (sobre o critério de demarcação de Popper) foi legendado em português.

Agradeço à Profa. Márcia Alvim (UFABC) pela dica.

Exercício feito na aula de 29/06

Identificar a estrutura do argumento baseado em uma passagem da Primeira Jornada do Discurso sobre duas novas ciências de Galileu (fonte: Alec Fisher, A lógica dos verdadeiros argumentos, pp. 184-185).

Conclusão a ser demonstrada: a tese da física aristotélica de que os corpos caem com velocidades proporcionais ao seu peso leva a uma contradição e deve ser rejeitada.

Estrutura do argumento:

0. O pressuposto do argumento é que cada corpo em queda possui uma “velocidade natural” que lhe é própria. Então o corpo mais leve possui uma velocidade “natural” menor do que a do corpo mais pesado.

1. Suposição inicial: os corpos caem com velocidade proporcional ao seu peso. [Assim, p.ex. um corpo com 8 unidades de massa (u.m.) se moveria com 8 unidades de velocidade (u.v.), ao passo que um corpo com 4 u.m. se moveria com 4 u.v.]

2. De (1) se segue que, se um corpo for formado pela união do corpo mais pesado com o mais leve, a velocidade de queda do corpo composto será proporcional à sua massa total. [Neste exemplo, 12 u.m. e 12 u.v.]

3. Então o corpo composto cairá mais rápido do que o corpo mais pesado sozinho.

4. Mas também de (0) e de (1) se segue que o copo mais pesado será retardado pelo mais leve a ele agregado, e também que o mais leve será acelerado pelo mais pesado. [Então, no exemplo considerado, a velocidade teria que ficar entre 4 u.v. e 8 u.v.]

5. De (4) se segue que o corpo composto cairá mais lentamente do que o corpo mais pesado.

6. Mas entre (3) e (5) existe uma contradição.

Conclusão: Logo, a suposição inicial (1) e o pressuposto (0) devem ser rejeitados: os corpos não possuem velocidades “naturais” intrínsecas e não caem com velocidades proporcionais ao seu peso.

Um comentário adicional: A física de Galileu, como se sabe, vai mostrar que os corpos caem todos com o mesmo movimento uniformemente acelerado, independentemente da sua massa. Por isso dois corpos em queda, um mais pesado e um mais leve, chegam juntos ao chão, e o mesmo acontece com o corpo formado pela união dos dois.