Kuhn sob as perspectivas estruturalista e laudaniana

Está no prelo o meu artigo “Valores e incomensurabilidade: Meditações kuhnianas em chave estruturalista e laudaniana”, a aparecer na revista Scientiae Studia, v. 10, n. 3, 2012 — número temático a propósito dos 50 anos de publicação da Estrutura das revoluções científicas — no qual faço uma colocação em perspectiva e uma reinterpretação das teses de Thomas Kuhn sobre a incomensurabilidade e sobre o papel dos valores na ciência.

As várias formas de variância axiológica e metodológica, e as várias formulações que a tese da incomensurabilidade recebe nos textos de Kuhn, são mapeadas no artigo. A incomensurabilidade semântica é analisada em detalhe, ao longo das diferentes fases do pensamento de Kuhn, e a metáfora das “mudanças de mundo” é colocada em questão. Uma forma adicional de incomensurabilidade que, sustento, está latente no sistema de pensamento de Kuhn, porém até agora não havia recebido a devida atenção, é também apresentada no texto.

Aplico as perspectivas de Larry Laudan (tanto de problem-solving quanto reticulacional) e estruturalista como ferramentas que permitem delimitar o escopo das diversas formas de variância presentes na imagem de ciência de Kuhn, estabelecer os seus limites, e resgatar o lugar da metodologia científica e a possibilidade de progresso. Em particular, o estruturalismo metateórico permite formular precisamente uma maneira de se contornar a incomensurabilidade — uma idéia que fora de algum modo sugerida informalmente por alguns intérpretes de Kuhn, porém ainda de maneira incompleta, e que não se encaixava de forma coerente no seu sistema de pensamento.

A reinterpretação que proponho no artigo tenciona desarmar as consequências relativistas da imagem de ciência de Kuhn, especificamente, no que diz respeito aos aspectos “valores” e “incomensurabilidade”. Isso abre um caminho para se resgatar a preponderância da problem-solving de uma maneira mais plena na concepção kuhniana de ciência – problem-solving que fora anunciada com alarde pelo próprio Kuhn, com seu discurso sobre a “puzzle-solving” científica, na parte inicial da Estrutura, apenas para se ver depois submersa debaixo de variados mecanismos, metáforas e “armadilhas” que tiveram o efeito de bloqueá-la por completo como categoria racional.

Este artigo faz parte de uma série maior, formada por mais dois artigos sobre outros aspectos da imagem de ciência kuhniana, explorando as perspectivas que se abrem a partir dela, bem como os limites dessa imagem. Nesta série, cuja publicação deve se estender por 2012-2013, procuro fazer, enfim, um balanço do legado de Kuhn para a filosofia da ciência do final do XX e início do XXI.

Novidades na antologia de textos do site

Vários textos novos (ou links novos) estão disponíveis na Antologia de textos do meu site:

BACHELARD, Gaston – “A complexidade essencial da filosofia científica” – A densa introdução ao clássico livro O novo espírito científico.

BLOOR, David – “The strong programme in the sociology of knowledge” – O manifesto clássico do modelo causal / simétrico, também conhecido como “programa forte”, da sociologia da ciência. [Link externo]

CONDILLAC, Etienne Bonnot de  – Tratado dos sistemas (capítulos selecionados) – Uma formulação ao mesmo tempo radical e sofisticada do empirismo do século XVIII, pelo autor citado por Lavoisier.

GRANGER, Gilles-Gaston – “Filosofar sobre a filosofia” – Capítulo 1 do livro Por um conhecimento filosófico.

KUHN, Thomas S. – “The function of dogma in scientific research” – Texto de 1963, sintetizando as principais teses da primeira parte do livro A estrutura das revoluções científicas (que completa 50 anos de publicação neste ano de 2012).

NASCIMENTO, Maria das Graças – “Cartesianismo e ilsutração” – Texto ao mesmo tempo sucinto e profundo, analisando a ruptura do Iluminismo com a ciência e a filosofia cartesianas. [Link externo para a edição online da revista Analytica]

E mais: links externos para sites com capítulos selecionados de Olivier Darrigol (Electrodynamics from Ampère to Einstein), Alexandre Koyré (From the closed world to the infinite universe) e Richard Westfall (The construction of modern science: Mechanisms and mechanics).

Confira tudo isso e muito mais na Antologia.

Colóquio sobre Thomas Kuhn na UFMG

Acontece nos dias 18 e 19 de junho na Universidade Federal de Minas Gerais o II Colóquio de História e Filosofia da Ciência em homenagem aos 50 anos do livro A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn. O colóquio terá a participação de Alberto Cupani (UFSC), Mauro Lúcio Leitão Condé (UFMG), Carlos Alvarez Maia (UERJ) e Ricardo Fenati (UFMG). O cartaz do evento está aqui, e detalhes podem ser consultados no blog do Grupo Scientia da UFMG.

A primeira edição desta que é a obra mais célebre de Kuhn saiu — de forma algo supreendente — como uma monografia ou ” fascículo” da célebre coleção associada ao positivismo lógico, a International Encylopedia of Unified Science, e hoje está disponível no Volume 2 da memorável compilação em dois volumes Foundations of the Unity of Science publicada pela University of Chicago Press. (Acima, vemos a folha de rosto da edição de 1970, já contendo o texto da segunda edição da obra de Kuhn.)

Acertando as contas com Thomas S. Kuhn?

Uma série de artigos recentemente publicados em um blog no New York Times acerca de um famoso filósofo da ciência do século XX tomou a comunidade internacional de filosofia da ciência de assalto, deixado os fóruns da área, na Internet, bastante agitados. Trata-se da série “The ashtray” (O cinzeiro), escrita pelo renomado diretor de cinema Errol Morris — ganhador do Oscar de 2003 na categoria documentário de longa-metragem, por Sob a névoa da guerra: Onze lições da vida de Robert S. Macnamara.

Morris, após se graduar em história, estudou filosofia da ciência em Princeton no início dos anos 70, e foi aluno de Thomas S. Kuhn (1922-1996), com quem teve uma relação tumultuada, tendo também convivido com alguns outros grandes nomes da filosofia da época. O mote da série é dado pelo episódio em que, segundo Morris, Kuhn lhe atirou um cinzeiro (sic) na cabeça.

Morris é extremamente crítico em relação a Kuhn — tanto o pensador (com sua obra) quanto o personagem (com as histórias a seu respeito). Os artigos são ricos em detalhes sobre as várias pessoas e situações mencionadas, e assim oferecem um retrato vívido do ambiente acadêmico e cultural da época. Certos diálogos são reconstruídos nos mínimos em detalhes — e nesse sentido, é claro, a prudência impõe uma boa dose de cautela quanto à precisão das memórias do autor.

O mais surpreendente, porém, é que Morris, apesar de ter deixado a área e se dedicado (com sucesso) ao cinema, parece ter continuado a acompanhar a literatura e os debates, e segue tendo opiniões bem nítidas e fortes sobre os temas. Os seus textos são densamente preenchidos com formulações bastante precisas das teses filosóficas, e explicações detalhadas dos argumentos e contra-argumentos.

Incomensurabilidade, anacronismo e racionalidade são alguns dos temas que ficam em evidência ao longo dos cinco artigos. O tema da perene assincronia entre o que se pensava sobre as idéias de Kuhn e como ele mesmo se via (achando que muitos de seus leitores e críticos não o haviam compreendido corretamente), é recorrente — e dá a deixa para que Morris cite fartamente Borges, o autor de Pierre Menard, por sua vez o autor do Quixote.

Enfim, pode-se concordar com Morris ou discordar dele, pode-se ficar mais indignado ou menos com o retrato pouco lisonjeiro que se pinta de Kuhn, mas trata-se inegavelmente de uma leitura sumamente interessante e provocativa, e por isso altamente recomendada para quem se interessa pela filosofia da ciência no século XX.

The Ashtray, Part 1 – The Ultimatum

The Ashtray, Part 2 – Shifting paradigms

The Ashtray, Part 3 – Hippasus of Metapontum

The Ashtray, Part 4 – The Author of the ‘Quixote’

The Ashtray, Part 5 – This contest of intepretation